segunda-feira, 23 de novembro de 2015

FALTA


Depois de seis anos juntos, dezesseis testes de farmácia mal sucedidos, uma média de 36 doses de pílula do dia seguinte, dois boletins de ocorrência, um gato atropelado e um dog com leishmaniose e, é claro, mais uma porção de pequenas coisas ruins e ela resolve me deixar. É que ela tava querendo um filho, saca? Ela dizia que faltava alguma coisa, que tava na hora da gente passar pra uma outra fase das nossas vidas. Eu tentava persuadi-la, sou maconheiro, às vezes fico lesadão, não daria certo. Vai ser bom pra gente, ela insistia, um nenezinho. Além da bebida é claro, o que mais me prejudica e me desqualifica pra tal função. A gente tá bem agora, mas falta alguma coisa, com um nenezinho nosso a gente vai ser feliz de verdade. Eu sou escritor, escrevo sobre coisas tristes, coisas quebradas, vendo livro em país de semianalfabeto em tempos de crise. Não posso sustentar um nenezinho e também não pretendo mudar de ramo. Daí ela começou a dizer que eu tinha medo. É claro que eu tenho, porra. Um nenezinho, caralho?! Que eu ia deixar passar essa oportunidade sublime que é gerar um filho. O mundo não é bom, seria um crime contra minha consciência deixar uma coisa dessas acontecer. Que eu ia morrer sozinho. Pra mim isso não era novidade alguma. E que eu era um covardão, que ela não ia ficar com um covardão. Fez as malas e foi embora.

Bem, um bocado magoado, segui minha vida torta, enchendo a cara, transando fumo e putas de procedência duvidosa, angariando encrencas na madruga e escrevendo merda. Nunca mais a vi, parece que ela tá morando no Paraná, Pará ou Paraíba, não tenho certeza. Foi o que ouvi dizer.

Às vezes me pego pensando que ela já deve ter conseguido um nenezinho. Desejo-lhe sorte e toda a felicidade do mundo. Mas às vezes também desejo que ela se foda toda e volte com a cara quebrada, o rabo entre as pernas, um filho nos braços e outro no bucho. Daí eu vou beijar sua boca, abrir a porta aqui de casa e adotar sua prole bastarda, aprender a trocar fraldas e a falar com aquele tom afetado e patético que costuma-se usar com filhotes. Talvez eu até deixe a maconha, a bebida e comece a me dedicar à literatura infantil. Sinto tanto sua falta.

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