segunda-feira, 26 de março de 2012

um monte de bosta


Às vezes eu tô de bobeira, ou meio enroscado em algum parágrafo de alguma coisa que eu teja escrevendo, às vezes tô sem bebida e sem porra nenhuma, às vezes eu só quero me divertir um pouco, aí fico escrevendo - sem qualquer tipo de compromisso - umas espécies de diálogos pra dois personagens (são irmãos) meio retardados que criei já tem um bocado de tempo, um é maconheiro, o outro pinguço, um mais caricato que o outro, enfim era pra ser uma peça de teatro, mas nunca rolou, o caso é que me pego de vez enquanto abrindo esse arquivo e escrevendo um pouco por lá, talvez um dia vire mesmo uma peça, um tipo de teatro só pra gente ir ver e tentar rir um pouco e encher a cara depois, nada de mais.  


"...1- Merda cara, de hoje não passa.

2- O que? Cê vai tentar se matar de novo?

1- Cala essa boca, quando que eu tentei me matar?

2- Cê tenta toda noite, bebendo essas cachaças bagaceiras, tá loco brother, como cê agüenta? Que você num tem grana pruma Salinas eu tô ligado, mas bebe pelo menos uma Ypióca, o estrago vai ser menor, pode acreditar.

1- Tô falando de buceta, seu cuzão, de hoje num passa, vou pegar uma mulher e comer a buceta dela.

2- Aí, cê sabe como são tratados estupradores na cadeia? Essa sua abstinência sexual vai ter fim, cê vai trepar direto. E pelo reto, se é que cê me entende.

1- Num sei como eu tenho saco pra te aturar, eu num sei, Deus me dotou de muita paciência mesmo e me deu um saco do tamanho do mundo pra suportar meses de porra acumulada e as suas babaquices ainda por cima. Eu tenho cara de estuprador seu babaca? Olha bem pra minha cara e me fala, eu tenho cara de estuprador? Sou católico seu Mané.

2- Então, se num vai estuprar por que sua religião num permite, vai fazer o que? Pagar pruma puta que cê num vai, num tem dinheiro nem pruma pinga decente que dirá pruma puta indecente que seja.

1- Aí, tô perdendo a paciência com você seu merda, se cê abrir essa latrina mais uma vez, caralho, tô avisando, quem avisa amigo é, se cê abrir essa privada suja mais uma vez pra falar mal da minha cachacinha eu te quebro a cara, cê ouviu? Eu te quebro a cara.

2- Ó o cara, tá apelando!

1- Porra bicho, eu já falei mal dessa maconha estragada que cê vive baforando, eu fico pesando na sua quando algum malaco te passa pra trás, te vende merda de vaca e cê fuma, depois ainda vem com aquele discursinho “melhor que nada”, eu falo alguma coisa, me fala? Eu te chamo de mané ou falo que cê devia parar de fumar merda se num tem erva, eu fico falando isso?

2 - Não.

1- Então pra que falar da minha pinga?

2- Que pinga, porra?

1- A minha pinga vagabunda de 25 centavos o copo americano.

2- Ah mano, cê que se vira com seu fígado, problema é seu, eu num tenho nada haver com os seus vícios.

1- Num é o que cê tava falando até agora, num é o que cê vive falando todo santo dia.

2- Eu?

1- Não, eu.

2- Então num sou eu porra, num me envolve nas suas crises existenciais não cara, já tenho uma porrada delas.

1- Num tô falando. É essa porra de maconha estragada.

2- Que nada, tenho essas crises desde que me conheço por gente, desde que descobri que num sirvo pra nada, cê sabe disso, cê lembra que quando eu era moleque num sabia fazer pipa, jogar bolinha de gude, futebol então, era uma negação, sempre fui o ultimo a ser escolhido no time da educação física, isso quando num colocavam um moleque manco no meu lugar, ele tinha uma perna 6 centímetros maior que a outra, ou era menor, sei lá, num lembro. Por que que tô falando isso mesmo?... ah só, o lance das crises existenciais né? Cada um com as suas, porra já sou mó complexado, teve uma vez que...

1- Chega dessa porra, a gente tava falando de buceta, fuder, lembra?

2- Que buceta? Que fuder? A gente tava falando de soltar pipa, bolinha de gude, futebol, da impossibilidade diante da falta de habilidade.

1- Mano, esquece essa porra. Vou descolar uma buceta hoje, de hoje num passa.

2- Ai ai, é pra rir? Essa é nova? Você conseguir uma buceta? Deixa só eu te esclarecer um fato, é o seguinte: sabe qual o tratamento que costumam dispensar a estupradores na cadeia?

1-Aí meu saco.

2- Seu saco? Cê devia é tá preocupado com o seu rabo, se for mesmo fazer uma bosta dessa, tem que se ligar irmão, as minas não são mais como antigamente não, hoje elas são tudo feministas, tem uma mulher aí uma tal de Maria da Penha que encabeça o movimento dessas feministas, dizem que a mulher é o capeta, tá transformando todas em lésbicas marombeiras, ensinando técnicas de guerrilha  e o caralho, é capaz de cê ainda tomar um pau da vítima e nem conseguir encostar no bico da teta.

1- Cala essa boca, seu otário, já falei que sou católico, igual o Kerouac.

2- Cê é católico? Nunca te vi indo na missa. Ai ai ai, mais essa agora.

1- Mano, antes que eu perca a paciência, deixa eu te esclarecer o motivo da minha tão inusitada visita, ou cê acha que eu gosto de vir aqui escutar as suas borrachas?

2- Ó o cara.

1- Cê sabe onde a Marcinha tá morando?

2- Ué, ela mudou?

1- Caralho, cê que falou que semana passada ajudou ela com a mudança.

2- Ah pode crer, ela mudou mesmo.

1- Pra onde?

2- Pruma kitnet.

1- Só, onde?

2- Eu é que sei, porra.

1- Caralho.

2- Mas aí, que cê quer com ela?

1- O que eu pudia querer?

2- Sei lá.

1- O seu Mané, me fala uma coisa, quando cê tá na seca, quando nenhuma mina cai nas suas conversas chapadas de maconheiro babaca, que cê faz?

2- Ah mano, eu fumo um e relaxo.

1- Isso cê faz o dia inteiro, porra, tô querendo saber o que cê faz além de fumar mais um.

2- Bato uma punheta.

1- E se num resolver?

2- Aí seu pervertido, tô ligado onde cê tá querendo chegar.

1- Até que enfim.

2- Mas eu num sou desse tipo não tá ligado, prefiro passar a vida inteira na punheta do que fazer esse tipo de merda, aí cê tá ligado como são tratados estupradores no xadrez? Vou te esclarecer...

1- Vai pra puta que te pariu. (sai)

2- O Mané, num esquece que a gente é irmão, filhos da mesma mãe..."

terça-feira, 20 de março de 2012

Começou depois do fim...

... pode crê, às vezes amanhece chovendo. Umas roupas sujas na mochila, um livro de poemas, umas doses de conhaque e aquela foto entre as páginas. Os fósforos encharcados no bolso.

Não fazia idéia de que lado devia seguir, apenas uma certeza: parar no bar mais próximo. Uma chuva fria filha da puta, pra combinar com minha carcaça blues, meus olhos vermelhos, pulmão congestionado, estômago vazio, meu rabo chutado.     

Começou depois do fim. Nada de novo, só o vento frio depois da chuva e quinze doses, o coração batendo bobo, o solo dum sax invisível solando o peito, avenidas em zig-zag. Do meio-fio escorre água.

Minha cara de panaca. Meus livros encaixotados, mágoa, rancor, o pôster que ficou na parede, minha alma fritando no inferno. Uma foto na lixeira.

Começou, era o fim. Insônia. De volta as ruas cheio da velha mágoa, camaradagens que beiram a falsidade, olhares que não se cruzam na noite. Paixões a primeira vista.

sábado, 17 de março de 2012

Nada

Ela deita no meu colchão no chão e eu penso em algo que possa agradá-la, mas não vem nada, há dois anos atrás eu não pensava nessas coisas, a gente só existia e sorria e trepava e reclamava um pouco do mundo lá fora ouvindo Charlie Parker, fumando cigarros e baseados e nada mais importava. É tão triste quanto bonito, ela ali, deitada no meu colchão no chão. Termino a confecção do baseado, como nos velhos tempos, acendo, coloco um blues e deito do seu lado e ela fala de gatos e cachorros abandonados nas ruas e é exatamente assim que eu me sinto, um vira-lata carente, farejando seu perfume, de pau duro. Passo a bola e ela fala sobre alguma merda que viu na TV, em outros tempos a gente gastaria uns minutos reclamando, nem isso mais, só ouço e lembro de quando a gente era mais que amigos deitados num mesmo colchão. Penso em algo que possa agradá-la, não vem nada. Fico calado, ouvindo ela falar, entendendo tudo, da mesma forma que entendo a letra do blues, quer dizer, só vou sentindo a parada toda, cada palavra desconhecida, cada nota e o baseado tá na ponta e meu coração fica estranho, chapado, descompassado, como quem pretende, sem sucesso, criar algum tipo de rima Há dois anos atrás... porra, há dois anos atrás a gente  saia por aí, de cabeça feita, meio hippies, meio beats, sem bad trips e a gente trepava na rua só pela aventura, pelo tesão do momento, o mundo era pequeno pra nós, a gente queria sempre mais sem pensar em nada, pensar era perca de tempo, a noite era pequena demais, a gente via o sol nascer. Ela continua falando qualquer coisa, eu já não consigo identificar palavra alguma, fico só sacando a forma como sua boca se movimenta, seus olhos espertos, verdes, vermelhos, acendo um cigarro. Há dois anos atrás acendíamos cigarros depois de trepar pra então treparmos de novo e de novo acendíamos novos cigarros e tudo era novo. Trago odiando a fumaça e o rumo que nossas vidas tomaram, penso em algo que possa agradá-la, não vem nada. Não somos mais nada. Ela vai embora.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Carinhas que desde muito cedo...

..entendem de que lado da calçada devem andar, mesmo que o outro às vezes pareça tão atrativo, eles sabem exatamente qual o lugar ocupam no mundo.

Fazia oito meses que eu tava ali, de volta, depois de um ano, nove anos depois de ter pisado ali pela primeira vez. Tava caindo fora. Eles tinham marcado uma festa, uma espécie de festa de despedida pra mim, é claro que num me sinto a vontade com esse tipo de coisa, mas a parada seria bem mais como a ultima vez que beberíamos juntos, pelos próximos meses, e tocaríamos canções que por algum motivo tornaram-se clássicas pra cada um de nós, velhos blues e rock and rolls que mudaram nossas vidas. Pode crê, a gente mudou pra caralho, é estranho isso de ter trinta anos e ter a certeza que há dez anos atrás tudo era radicalmente diferente, como que um velho relembrando seus tempos de infância. Passamos juntos uma cacetada de coisas, das mais bacanas às mais satânicas, foda. A gente não escolheu sermos amigos, a coisa só foi acontecendo sem paradas pra descançar ou prum rápido lanchinho que seja, porra nenhuma, era um minuto após o outro, cada dia era uma merda ou uma paixão diferente, à mil por hora a gente seguia inventando formas de mandar a merda tudo que viesse a nos desagradar. Quase tudo nos desagradava, a gente gostava de coisas bacanas, pô. De modo que essa ultima bebedeira juntos, seria especial, mas eu não ia ficar pra ver. Eu era uma decepção, quase uma resignação, algo como “foda-se, esse cuzão é assim mesmo, vamô beber de qualquer jeito, vâmo beber por ele também”, caralho, tô falando dos meus amigos, eles sabiam que era uma puta babaquice da minha parte esse negócio de não esperar mais um dia, pra beber com todo mundo por perto, todos de uma só vez, além de ser a noite de lançamento do livro de um grande brother que eu ajudei a editar e até escrevi a orelha. Eles não entendiam, mas respeitavam minha babaquice, só uma ou duas garotas não fizeram questão de entender, parece que uma delas ficou um bocado magoada. Eu sou um babaca. Já tinha até comprado a passagem.

Carinhas que desde muito cedo já sacam que entre o sagrado e profano existe um buraco tão fundo e escuro como suas almas. Mas nada disso faz a menor diferença. Eles sabem que tem tanta coisa no mundo.

De volta ao velho ônibus oito meses depois, é claro que eu já não era mais o mesmo, eu num era mais nem o ultimo fio de sombra do que eu era oito meses antes, qualquer coisa nos meus olhos refletidos no pequeno espelho vagabundo de frente praquela bacia sanitária química, me dizia isso, eu havia mudado. Me masturbei imaginando como tava sendo a ultima bebedeira dos amigos e pensei nas duas garotas magoadas, demorei pra gozar, mas por fim relaxei, voltei pro meu acento e saquei a garrafa de whisky da mochila, eu não era louco de tentar fazer uma viajem daquelas sem uns tragos pra amainar a ansiedade.

Carinhas que desde muito cedo fazem da persistência suas maiores qualidades. E seus piores defeitos.

Eu tava voltando por ela, quer dizer, isso é o que eu queria acreditar, mas na real sempre soube que eu só tava me acovardando em companhia dos meus amigos, eu tinha o mundo todo pela frente, era a chance de por em prática aquela viajem de carona de norte a sul do globo, esquecer tudo, conhecer tudo. É claro que num ia fazer nada disso. Fui pro único lugar que eu conhecia, voltei a cidade que desprezava, uma cidade maldita, de pessoas malditas, mas com exceções tão raras que valia a pena. Ali, em companhia deles, o tempo parava pr`eu descansar um pouco. Todo mundo sabia que eu não ia ficar ali pra sempre, tava só tentando reconquistar qualquer coisa parecida com auto-estima, eu era um trapo fudido deixado num canto imundo pra baratas passarem e cagarem de nojo, pra ratos mijarem suas doenças de esgoto, ia ser necessário beber muito ao lado deles, foi o que eu fiz. Deu resultado, eu continuava sendo um perdedor fudido, mas isso já não fazia a menor diferença, eu já era capaz de percorrer o caminho de volta.

Carinhas que desde muito cedo roteirizavam cenas perfeitas em velhas polaróides imaginarias, e mantinham seguros seus calendários na carteira e um casamento em baixo do colchão.

O nosso lance foi bancana. O mundo parecia um lugar bacana pra se viver, algo parecido com paz.Tesão e paz. Um caso beat-semi-hippie o nosso. As conversas sem virgula madrugada a dentro, as formas mais loucas de se fazer a cabeça, as trepadas no sofá, na cozinha, na chuva, na rua. A camaradagem, principalmente a camaradagem, éramos tipo irmãos incestuosos, éramos amigos e tínhamos como sagrado o valor da amizade. Éramos.

Carinhas que desde muito cedo criavam heróis derrotados, que nunca saiam com a vagabunda mais cobiçada do colégio, nem conseguiam sequer um olhar de ternura daquela pequena encantadora da rua de baixo, mas continuavam desejando-a e fazendo micagens.

Era seu aniversário, até a meia noite ainda era seu aniversário, era imprescindível encontrá-la antes, do contrário, teria ficado bebendo com meus amigos e nenhuma garota taria magoada comigo. Eu sou o melhor, quando o assunto é babaquice. Eu não acreditava que algo fosse mudar, só por uma demonstração babaca de que eu era capaz de lembrar a porra duma data específica. Num tava bancando o romântico, num tava ali pra conquistar, reconquistar ou qualquer merda do tipo, eu só queria dá um abraço nela, eu nunca gostei, mas ela curte essa coisa de aniversário.

Carinhas que desde muito cedo já flertavam com esperanças forjadas em sarjetas de pinga com refrigerante, carinhas que vomitavam uns nos outros pra em seguida beber de novo. Carinhas que leram livros demais.

Cheguei às dez, bêbado feito um porco, tinha duas horas pra encontrá-la entre nove milhões de pessoas, sabia que seu prédio ficava em frente a um salão de cabeleireiro lilás,  já era alguma coisa, minha mochila já nem parecia tão pesada assim.

Uma dose de conhaque, duas de pessimismo

O mundo me deprime, às vezes me pego pensando “que merda eu tô fazendo nessa bosta”, o que não quer dizer que eu seja afim de meter uma bala na minha cabeça, até porque tenho minhas estratégias de fuga que na verdade nem tem muito a ver com fuga, o caso é que consigo me manter quase tranquilo no mundo, lendo Bukowski, ouvindo Bêbados Habilidosos, vendo os vídeos da Saco de Ratos no you tube. Também tenho alguns bons amigos por aí, uma família bacana, dentre outras pequenas coisas que ainda me enchem de esperança.
Esperança. Estranho, tenho problemas com algumas palavras: amor, esperança, sonhos. Mas é sobre isso que eu escrevo, é isso que me mantém por aqui. Às vezes me pego emocionado ouvindo uma história qualquer de um tiozinho qualquer, bêbado num boteco qualquer, ou quando vejo um moleque correndo, cheio de vida e inocência, fazendo coisas de moleque, mas hoje não.
São 3 da tarde e eu tô bêbado, não me pergunte por que, não tenho nenhum tipo de resposta pra nenhum tipo de pergunta, no momento só há uma certeza ecoando na minha cabeça: “A humanidade fracassou”. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

CLITORIS





Já acreditei pra caralho nesse negócio das pessoas se juntarem pra fazerem algo que acreditam. Fiz algumas coisas boas com pessoas que gosto, mas já me fudi pra caralho também, talvez por isso, esse negócio de escrever, essa coisa solitária e tudo o mais. Não tô querendo dizer que não acredito em união, porra, de forma alguma, ainda mais quando se trata de união por afinidade, fazer pelo tesão, pra tentar se divertir um pouco nesse mundinho chato e careta demais (cada vez mais). Parece que esse é o caso da Revista CLITORIS, é um projeto da Camila Fraga, os textos sem a menor dúvida serão du caralho, pois seus autores escrevem pra caralho (Bruno Bandido, Diego Moraes, Adriana Brunstein, Paulão das Velhas Virgens)não conheço ninguém pessoalmente, mas os leio a cada novo post.
O lançamento da parada vai ser dia 21 de fevereiro, é claro que eu num iria pra desfile ou baile de carnaval nenhum, mas digamos que agora eu tenha um motivo a mais pra ficar em casa, caso outros brothers não se juntem nesse dia pra fazer algo realmente bacana pra que possamos suportar época tão, digamos, "ALEGRE".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012


Lembrei desse trecho do "GATOS NO CIO NÃO PEDEM PERDÃO", aproveitando a deixa, pra quem for afim de segurar um exemplar, ainda tenho alguns, tão acabando, num sei quando sai a próxima edição.

"Madrugada passada reli o “Misto Quente” do Bukowski, cê por acaso conhece Charles Bukowski? Já ouviu falar pelo menos? Brincadeira brother. É que lembrei duma cena que rolou esses tempos, vou te contar pra você não me achar um cuzão prepotente metido a intelectual semi-maldito. Eu tava trabalhando – de novo volto a ter a sensação de que tô trabalhando quando boto os livros embaixo do braço e saio por aí – entrei num bar de playba, já daquele jeito, desejando ter uma metranca ao invés de livros pra oferecer-lhes, não é por nada, mas esse bar é normalmente freqüentado pelos seres mais repugnantes do universo pequeno burguês, não que eu tenha exatamente algo contra um cara morar numa casa bacana e bem equipada, ter freqüentado boas escolas e rodar por aí com um BMW tipo Sport novinho, enquanto eu moro numa kitnet minúscula e úmida, reprovei na oitava série da escola pública do meu bairro e ando de bike por aí congestionando o trânsito, nada disso, o que eu sou contra é uns imbecis do naipe dos que batem cartão nesse bar, arrotando clichês dos mais batidos e por uma sincera amizade recém surgida entre “nós”, se acharem no direito de me surpreender com seus intrometidos conselhos imperativos, isso é que me torra o saco, fiquei até um tempo sem nem passar em frente desse bar, mas nesse dia eu precisava de grana pra pagar a conta de energia e comprar um livro do Mário Bortolotto, já tinha rodado por todo lado e só conseguido parte da grana, o dito cujo bar era a última cartada, lá sempre rolou legal, muitas vezes consegui ali mais que a soma do saldo de todos os bares juntos, afinal, dinheiro num é problema praquelas antas e eles também lêem, são do tipo leitor ignorante, que lê de tudo, os clássicos – com certeza – e o que tiver pegando de novo no momento, são freqüentadores assíduos de livrarias-cafés, alguns escolhem os livros pela qualidade do papel ou número de páginas, colecionam obras raras e edições luxuosas de russos malucos, muitas vezes no original, muitos transitam pela filosofia e citam Nietzsche na mesa do bar e Shopenhauer, Spinoza, Kant, Descartes e sabichões, mas os pulhas não captam nada, não sentem porra nenhuma quando lêem a última frase de um Hemingway, não são cometidos por uma vontade efêmera de esconder as facas da cozinha antes de abrir um Dostoievski que ficou ali pela metade porque o envolvimento tava demais. Esses caras lêem de olho na numeração das páginas, com o tédio de quem não se vê retratado nas mesmas. Enfim. Os caras são mesmo tudo isso e além do mais são chatos pra caralho. Volto a repetir, não tenho nada contra ter dinheiro, afinal eu tava ali atrás disso, sei que tem um monte de burguês-cabeça-aberta, que entendem que tudo que têm, só têm por que outros não podem ter e por isso não se acham uns bostas superiores, já encontrei vários por aí, mas não nesse bar, nem um único dia sequer. Deu vontade de te falar sobre os bares por onde passo e os tipos de freqüentadores de cada um deles, com o tempo fui conhecendo cada um, eles se modificam um pouco nos diferentes dias da semana, mas não muito, deixa pra lá. O negócio é que nessa noite eu cheguei nesse bar daquele jeito, pensando em procurar um emprego na manhã seguinte, aquilo não era um trabalho, era uma tortura. O lugar tava lotado, cheirando perfume francês – sei lá que cheiro tem perfume francês, mas digamos que fosse francês – cigarros mentolados e batata frita aos cinco queijos, eles tão sempre comendo essas batatas, com certeza deliciosas. Tinha um cara de óculos escuros sentado na primeira mesa em posse duma garrafa de Green Label, cheguei e me apresentei, falei que era escritor e tava divulgando meu trabalho, sempre falo a mesma coisa pra todo mundo, tenho o texto decorado e só vario a tonalidade e o volume da voz dependendo da situação, pra esse sujeito falei sem qualquer empolgação, não sabia se ele tava me olhando por trás dos óculos escuros, quase parei no meio da segunda frase e fui pra outra mesa, devia mesmo ter feito isso, mas não sei porque fiquei até o ponto final “Então tu é escritor?” perguntou num tom meio malandrão de condomínio, me poupou duma resposta sem pensar quando não esperou por ela e continuou “Deixa eu analisar o
material.” joguei um na mão dele pensando em granadas sem pino. Ficou lá analisando por uma cacetada de tempo, o que não me incomodou, pois uma loirinha de óculos de aros grossos deslizando no narizinho pontudo de deusa grega me olhava, passava a língua entre os lábios rosados, um olhar de desejo, ela tava afim de dar pra mim, a gente sempre sabe quando uma mulher tá afim de dar pra gente, muitas vezes fantasiamos, mas é só por diversão, pra ter uma musa pra punheta antes de dormir, mas quando uma mulher tá afim de verdade de dar pra gente, a gente sempre sabe e aquela tava afim, era minha próxima mesa, ela até virou a cadeira pra ficar de frente pro escritor fodão, era assim que eu tava me sentindo, cruzou e descruzou as pernas algumas vezes, tava vestindo uma saia preta, bem justa, pouco acima dos joelhos, uma blusinha bem decotada de alças, também preta, tinha uma tatuagem cheia de cor no ombro esquerdo, não deu pra ver o que era, um medalhão tipo medieval pendurado num cordão de cobre balançava entre o vão de seus seios fartos, os cabelos cor de ouro até os ombros também balançavam quando um vento vindo sei lá de onde tocavam neles e tava usando umas botas pretas invocadas que lhe caiam muito bem. Eu já tava imaginando a gente num motelzinho 5 estrelas, eu chupando sua bucetinha rosa, ouvindo seus gemidos de prazer, louca pra chupar meu pau e a gente ia fuder a noite inteira e tomar um banho na banheira de hidromassagem e ela ia me dar o cu e o babaca de óculos escuros me vem com essa, com o mesmo tom de malandrão de condomínio falando com o porteiro “É seu primeiro livro, né meu querido.” Não, é o quinto meu querido, respondi mas ele não ouviu, desviou a atenção pra bunda duma garçonete que passou carregando uma bandeja de batatas fritas aos cinco queijos “Mulheres meu querido, se quer ganhar dinheiro como escritor escreva sobre as mulheres, escreva bem sobre as mulheres e se tornará um homem rico.” era só o que faltava, ele prosseguiu, “Notei que tu cita Charles Bukowski, o que tu já leu de Charles Bukowski? Já leu algum livro inteiro, até o fim?” estufou o peito pra falar essa merda, levantou a voz me apontando os dedos indicador e médio enquanto o polegar mirava o teto, era mais do que eu podia suportar, tomei o livro da sua mão, soltei um vai se fudê de dentes cerrados e caminhei uns quarenta passos bar afora, parei na esquina e acendi um cigarro, tava tremendo, traguei nervoso. Que filho da puta, por algum motivo que até hoje desconheço aquele não era só mais um filho da puta, eu tava enxergando escuro, o coração querendo sair pela boca, nunca me senti assim antes, acho que era aquele negócio tipo TPM. Que filho da puta, eu não parava de pensar, fiquei ali parado na esquina uma cacetada de tempo, quando me dei conta tava caminhando de volta pro bar, me perguntando: Porra cara, que cê vai fazer? Vou estourar os bagos desse filho da puta. Para com isso brother, vai pra casa, isso vai dar merda. Vou estourar os bagos desse filho da puta. Pensa melhor, cê tá nervoso atôa, deixa essa porra pra lá. Vou estourar os bagos desse filho da puta, enfiar a cabeça dele na privada e cuspir na sua cara nojenta de playba arrogante. Sinceramente, queria me sentir assim mais vezes e ter umas metrancas e umas granadas, mas nunca mais aconteceu. Sinto que naquela hora eu podia levantar carros, derrubar prédios, eu podia matar. Entrei na porra do bar e fui direto na primeira mesa, o filho da puta não tava mais ali, devia tá no banheiro, o que facilitaria meu trabalho de estourar seus bagos, socar sua cabeça na privada e cuspir de nojo daquele cheiro de mijo sobre gelo e rodelas de limão, bem na sua cara de playba maldito. Chutei todas as portas e ele também não tava, voltei pra fora e sinto que já podia derrubar aviões e viadutos, eu queria matar, mas o desgraçado filho da puta tinha evaporado.
Terminei aquela noite num butequinho de quinta, ouvindo tiozinhos cantarem suas tristezas acompanhados duma viola de doze cordas e uma sanfona, bebi pinga e fiquei bêbado, nem sei como cheguei em casa.
Em meio a ressaca brutal do outro dia foi que me lembrei da loirinha que tava afim de dar pra mim e eu não comi porque tava possuído pela ira e desejo de morte, eu sou um babaca, a cada dia que passa tenho mais certeza disso, sou tão babaca que nesse mesmo dia fui lá e comprei o livro do Bortolotto e um maço de velas, essa noite foi bem mais tranqüila e o clima foi de paz.
Puta merda, depois te falo do “Misto Quente”. Viajei."

GATOS NO CIO NÃO PEDEM PERDÃO
127 páginas
BAR editora
$20 pila

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Debaixo da ponte


Hoje acordei com uma canção da genial Etta James na cabeça, ouvi repetidas vezes antes de deixar o disco rolar inteiro e depois ouvi Ella Fitzgerald e Bassie Smith e Nina Simone e fiquei pensando numa amiga, coisas além-amizade, procurei uma foto sua e me masturbei. Li uns poemas da Luana Vignon e umas opiniões sobre coisas banais duma gostosa capa da Playboy e um email bacana que uma garota me enviou dizendo que gostou do meu livro e que a gente podia tomar uma cerveja qualquer dia. Esses dias uma outra veio me dizer que achou meu livro pornográfico, eu disse pra ela que pornografia era outra coisa, ela disse que ficou excitada e nessa hora chegou uma amiga dela e ela fez a propaganda “amiga compra esse livro, é demais!” aí eu disse, pra amiga, “Essa maluca disse que se masturbou me lendo.” E nós três rimos e a amiga comprou o livro e prometeu gozar e eu fui pra outra mesa pensando que eram garotas legais e que garotas legais tem se tornado uma raridade na minha vida de escritor-ambulante, tirando as cantoras de jazz e blues e as escritoras e essa amiga que me faz gozar sozinho, não tem havido mulheres na minha vida, o que num é saudável, tá certo, como disse o velho Hank: “muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher”, mas porra, sem elas, onde é que vamos parar?


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Gabriela, uma sombra sob a luz

Um dos primeiros contos que eu escrevi, tá no meu "soneto em mim menor para copos e cinzeiros", disponível pra quem for afim.

BAR editora
pocket 40 páginas
5 pila (+ frete)

Gabriela, uma sombra sob a luz

            Um mês depois que Gabriela foi embora, coloquei numa mochila, duas calças, umas camisetas, escova de dente, alguns livros e meia garrafa de vodka. Eu precisava ir para qualquer lugar, num tava fugindo, nem abandonando tudo, só precisava ir pra algum lugar. Na rodoviária comprei 3 coxinhas e um suco de laranja que misturei com um pouco da vodka, eu tinha algum dinheiro que havia conseguido vendendo poesias num congresso universitário. Peguei o ônibus que ia pra São Paulo. Sentado confortavelmente naquelas poltronas macias eu num pensava em nada. Rodávamos e eu já nem sabia em que cidade estávamos, parávamos em todas as rodoviárias e numa delas resolvi descer pra comprar mais coxinhas e suco de laranja. A primeira coisa que avistei foi um hotel decadente, aparência horrível, era lá que eu queria ficar. Não voltei mais pro ônibus, da recepção eu o vi partir sem mim, acho que nem sentiram a minha falta. Paguei uma diária, o que me dava direito a permanecer 24 horas naquela espelunca, “Café da manhã e tudo.” dizia o rapaz magricela atrás  do balcão “E nada de levar mulher pro quarto!” eu não entendi, as putas entravam e saiam dos quartos dos hospedes, gritavam, ofereciam cocaína “Déizão o papel fíh!”. Mas tudo bem, o negócio é que eu já tava longe de tudo que me lembrava Gabriela, num sentia mais o seu cheiro no ar, aquele hotel cheirava mijo, as paredes de madeira  lhe davam um aspecto duma enorme latrina fedorenta. Era perfeito. Já tava anoitecendo, peguei a chave e subi pro meu quarto, 504. Fiquei olhando o movimento da rua pela janela, tomando o que restava da vodka. Dois travestis deram uma surra num garoto que passou de bicicleta e cuspiu na cara de um deles numa outra ocasião, naquele momento tava de bobeira achando que não seria reconhecido. Ele chorava, pedia perdão, disse que tudo tinha sido uma aposta que fizera com uns amigos, o cuspe não era pra ofender, era apenas parte duma aposta. Coitado, apanhou feito Cristo. Fiquei observando sem fazer julgamento algum, sem concordar nem discordar, apenas observando. Algumas garotas que faziam ponto por ali eram realmente bonitas, eu gostava das putas, faziam o seu trabalho dignamente nos deixando cientes desde o começo qual o preço deveríamos pagar. Amar é mais difícil, nunca sabemos que preço pagaremos no final das contas, algumas vezes são muito altos. Eu pagava o meu preço. Permaneci ali por um longo tempo, bebendo devagar, então resolvi me deitar e ler uma pouco. “Mulheres” do Bukowski, naquela hora eu queria ser como Henry Chinaski, me fazer de durão, trazer uma daquelas garotas lá de baixo, beber com elas e fudê-las o resto da noite, sem nenhum tipo de sentimento. Mas não, eu num era Henry Chinaski e nem ele era assim, éramos homens sozinhos, bebendo sozinhos, Chinaski e eu.
            Naquela noite não consegui dormir, levantei-me, ainda tava escuro, abri a porta e o rangido da maçaneta enferrujada causou-me uma estranha sensação, uma espécie de deja-vu desfigurado, acompanhado de um cheiro familiar, mas identificável. Caminhei pelo corredor vazio, aqueles quadros antigos causavam-me náusea, junto ao som dos passos no piso podre de madeira sob o carpete quase mofo. No banheiro o espelho rachado me dividia ao meio, a água fria molhava o rosto, pingava o chão marcado de pés. Na privada escorria minha urina sobre a bosta amanhecida, desfacelando-a, partindo-a ao meio. Dei descarga e a vi girando, girando, entrando pelo cano, pedaço por pedaço, só restando migalhas e a água escura: restos, assim como meu amor. Não tive coragem de puxar novamente a cordinha... eu ainda amava.
            Caminhei até a rodoviária e comprei mais 3 coxinhas, não voltei mais pro hotel, comprei passagem no ônibus que me levasse de volta pra casa. Não ia adiantar ficar ali, Gabriela estava em todo lugar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pra quem for afim


Façam as pazes com a tristeza. Respeitem a solidão.  É o que penso quando saio pelos bairros boêmios e vejo a maioria das pessoas tão cheias de si, donas de certezas e de maneirismos e risadas brancas – ninguém parece se importar em seguir as regras do jogo. E é exatamente no meio dessa merda toda em que Kleber Felix tem a manha de colocar seu personagem deslocado, seja pra tentar vender uns livros ou transar alguma garota, sempre com alguma esperança, uma espécie de otimismo de sarjeta que lhe faz levar em conta a hipótese da noite lhe apresentar alguém realmente interessante por trás de shapes femininos universitários ou qualquer coisa que o valha. Claro que isso tem suas conseqüências. Ser um fudido é um bocado difícil, ser um fudido com esperança, então, é a mais pura fossa.
(do Prefácio de Bruno Bandido)

BAR editora
127 páginas
Tamanho 15X21
20 pila (+ frete se for o caso)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Num dá pra apagar os riscos dum disco furado

Saca esses períodos longos de noites bestas? Pois é, numa dessas noites escrevi a parte 2 desse conto abaixo, acho que tava em primeira pessoa, não me lembro, até postei no antigo blog e blá blá blá... numa outra noite besta escrevi a primeira parte, aí pintou um concurso literário aí, eu num tinha nada inédito no momento, foi aí que me pareceu uma boa combinação, fiz as devidas mudanças e o negócio se tornou um conto, enviei pro concurso. É claro num ganhei.

Num dá pra apagar os riscos dum disco furado
1
Amassou a folha recém datilografada depois que ela saiu.
Botou a agulha sem muito cuidado no disco rodando, depois de se servir duma dose de conhaque e afundou na poltrona. Os primeiros acordes tão conhecidos daquele sax-alto soaram como que inesperados em algum lugar bem íntimo dentro dele. Fechou os olhos e deu um gole, um pequeno gole e ela tava ali, como sempre, reclamando do seu gosto musical ultrapassado, assim como os seus poucos móveis e seus livros e seu vocabulário e suas roupas, sua máquina de escrever enferrujada, seus problemas com a bebida. Abriu os olhos e deu mais um gole, dessa vez dos grandes. “Há algo de muito errado com você cara, cê vai morrer sozinho, cê vai ser enterrado como indigente, sem que haja alguém pra acender uma vela pela sua alma miserável, sua alma vai ficar vagando por aí, pela eternidade, atrás de bebidas e desses jazz esquisitos, sem nunca encontrar a paz, – repetia ela, pela centésima vez, garota cruel – Há algo de muito errado com você cara. Tá certo, errar é humano, assim como tentar não repetir as mesmas cagadas, mas cê num faz questão disso né?
O disco furado enroscou no mesmo lugar de sempre e aquele riff que nunca se completa ficou ali, ecoando ébrio. Alcançou a garrafa e serviu-se de mais uma dose.

2
"Cê tava escrevendo?" - foi a primeira coisa que ela perguntou.
Não. Ele tava mesmo era cochilando, afundado na poltrona, a garrafa com meia dose sobre o peito, quando ela bateu na porta.
Se sentiu no direito e foi entrando depois de beijar-lhe o rosto, mesmo sabendo, que um beijo no rosto numa situação daquelas era pior que a maior das indiferenças, mesmo assim beijou-o no rosto, olhou em volta, acendeu um cigarro, depois de retirar a agulha do disco ainda rodando, o silêncio fez-se constrangedor.
Ficou parado olhando pro corredor vazio. Ela tinha a manha de deixá-lo assim, desarmado. Sentindo ainda o beijo fresco na bochecha, fechou a porta e se atirou em direção à rua. Talvez tenha sido um erro. Tava frio pra caralho e ele feito um babaca andando sem rumo, sem agasalho ou moedas no bolso.
“Garota cruel, nunca mais faça isso, nunca mais me beije a face. Você num foi? Então fica por lá, seja lá onde "lá" for. Num aparece mais não, não venha com seu cinismo e seus beijos molhados na minha barba por fazer, me deixa em paz.” É o que queria ter dito, de qualquer forma seria um erro, ela não era do tipo que se importa com sentimentos alheios. Garota cruel. Mesmo que ele gritasse palavras obscenas que a chamassem de vaca egoísta, puta ou qualquer merda do tipo, de nada adiantaria, um erro ainda maior.
Dos erros, o menor. Voltou tarde, encontrou a porta aberta e ela dormindo toda torta na poltrona, a garrafa vazia no chão, o mesmo riff ébrio ecoando, ficou um tempo ali, sacando a cena, não havia crueldade alguma em seu rosto e a trilha era perfeita.
          Beijou sua boca e a levou pra cama.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Desgraça



Uma amiga me liga um tanto impressionada depois de ver um documentário sobre a desgraça que é a humanidade, reclama um pouco e a gente se despede. Nunca fui bom com essas coisas de conversas por telefone, fico com o fone pregado no ouvido, olhando pro nada, às vezes me distraio, mesmo com ela com quem me sinto a vontade pra caralho.
Fiquei pensando depois, na merda toda, incomodado, porém resignado. Eu já quis mudar o mundo, eu tinha planos pra isso, mas com o tempo fui sacando que o mundo são as pessoas, eu não posso mudar as pessoas. Penso em parar de fumar, fumo enquanto penso. Não tenho nada na vida, além de umas caixas guardadas na casa dessa amiga, com livros e cds e dvs, a maioria piratas, alguns amigos e uma vontade filha da puta de que as coisas fossem diferentes. Mas elas não são.

sábado, 15 de outubro de 2011

Toque de recolher

Noite besta a de ontem. Fiquei em casa, fingindo rever cenas de filmes que eu já vi tantas vezes, escrevendo merdas indignas de serem lidas. Num comprei bebida. Não que eu teja reclamando, foi uma espécie de escolha, ando meio cansado da rotina dessa cidade: vender livros por aí, depois ficar na frente do mesmo bar de sempre bebendo em copos plásticos, angariando possíveis aventuras dignas de serem chamadas aventuras, não que elas não aconteçam, talvez seja esse o problema. Até liguei pros amigos, numas de evitar o inevitável, mas os sacos dos meus amigos tão muito mais cheios que o meu. Voltei aos discos de blues madrugada adentro, uma velha receita que sempre deu resultado, mas não dessa vez. Saca cigarro quando chega no filtro? Esse era eu junto das bitucas caídas fora do cinzeiro. Meu tempo nessa cidade se estendeu demais, tô há tempo demais por aqui, o que pode ser um erro, apesar dos amigos. Às seis da manhã baixei um pouco o som, desliguei a tv há muito sem volume e deitei pra rolar no colchão, por sorte dormi antes das oito e lembro de ter pensado que numa hora daquelas, uma garota de sorriso mais que bonito devia tá dormindo. Desejei que tivesse bons sonhos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Materia do brother Wender sobre o escritor bêbado

Ontem, por acaso encontrei o brotherWenderCarbonari, dias atrás ele tinha feito uma entrevista comigo pro Jornal“A Notícia”, um jornal laboratório dos cursos de comunicação social da Unigran, o Wender faz jornalismo, terceiro ou quarto ano, não tenho certeza, o lance é que ele quis fazer essa matéria comigo, não exatamente sobre meu trampo, também, mas a idéia era um perfil sobre o escritor bêbado, hesitei a princípio, mas ele me convenceu, não precisou de muito pra isso, já que tô ligado que o lance dele no jornalismo é outro, quer dizer, ele curte um lance chamado “Jornalismo literário”, acho que é isso, não tenho tanta propriedade pra dissertar a respeito, ele queria fazer algo diferente do proposto pelos professores do curso, uma matéria em primeira pessoa, um troço que segundo ele é inaceitável, pelo menos por aqui, o que provavelmente lhe daria nota zero, ele tava cagando pra isso, queria escrever a matéria por afinidade mesmo, não só por sermos camaradas, mas por fazermos coisas bem parecidas, quer dizer, eu escrevo meus “blues em prosa”, ele toca guitarra na banda “Esckolblues”, talvez por isso botou o título da matéria de “O escritor blues”, o que pra mim, com toda a modéstia que às vezes fode minha vida, me deixou orgulhoso, só acho que ele devia ter assinado “WenderCarbonari, o jornalista blues”, mas tudo bem, talvez seria demais mesmo, pros padrões. Espero que ele consiga tirar pelo menos um e meio, mesmo sabendo que não faz diferença alguma. Parece que ele curtiu escrever, eu curti ler também. Valeu man.
Literatura das ruas
O escritor blues
Wender Carbonari
Kleber Felix é o tipo de pessoa que você não conhece dois iguais na vida. Confesso que eu estava com pressa. Tinha que fazer a entrevista logo. Mas antes da primeira pergunta ele pediu uma cerveja, logo acendeu um cigarro e a conversa começou...

“Era pra eu ter sido um cara normal, desses que sempre vejo passando do outro lado da rua, eu tinha planos para isso, mas muito cedo eu conheci um negócio chamado Rock and Roll”
“Eu queria ser hippie antes de tudo isso. Queria botar a mochila nas costas e ir embora. Mas eu não tive motivo sabe, meus pais são os pais mais legais do mundo” 
Com de 27 anos, natural de Birigui, interior de São Paulo, Kleber Felix não era aquela criança que sentava no “fundão”, muito menos daqueles que sentava junto aos estudiosos da classe. Ficava no canto, não tinha muitos amigos.
Para marcar a passagem da infância para adolescência de uma pessoa algo grande tem que acontecer. No caso de Felix, o detalhe revolucionário foi o rock, para ser mais exato o punk rock. Ainda em uma época em que ser escritor não passava pela sua cabeça.
“Hoje, eu acho que não sei fazer outra coisa. Eu gostava de escrever, não que eu não goste mais, mas agora é quase uma necessidade”
Veio para Dourados fazer o curso de história que não concluiu por detalhes. Ainda no terceiro ano surgiu a velha pergunta: “Não sei se é isso que eu quero”. De fato, não era o que ele queria. Chegou a começar o curso de Letras. Novamente parou.
“Tudo que eu escrevo nos livros eu considero como ficção. Mas surgiu de algum lugar. De repente com uma conversa com um amigo, de algo que aconteceu de verdade”
Ainda na faculdade percebeu o gosto pela escrita. Chegou a esboçar uma novela. Assim, aos poucos começou a desenvolver seu próprio estilo.
Sem esperar ser contratado por alguma grande editora, Kleber Felix começa a produzir seus livros, imprimir e vender seu trabalho pelas ruas da cidade. Para muitos, algo próximo de pedir esmola. Ele comenta que já sentou cansado no meio fio, pensou em desistir e procurar um emprego algumas “incontáveis vezes”. E assim como um alcoólatra que diz que vai parar de beber enquanto está bêbado, Kleber Felix volta para as ruas no dia seguinte para continuar suas vendas. “Eu não gosto, acho que estou me acostumando, mas sou um péssimo vendedor” diz.
Ir de mesa em mesa vender suas histórias e repetir o mesmo texto centenas de vezes não é tarefa fácil. Não existe uma censura para as palavras usadas nos livros do Kleber. Ele mesmo confessa que não tem uma responsabilidade social pelo que escreve. Alguns detalhes em seus contos podem ofender os mais conservadores.
“É tudo meu o que está alí, mas de repente nada é verdade. Pode ser chamado de Conficção que é uma ficção com convicção”
Por vezes, seus contos lembram as letras tristes do “Blues”. As histórias de seus personagens se confundem com sua próxima história ou com experiências contadas por conhecidos.
Perguntei se ele, por tudo que já viveu, se sentia velho, e, categoricamente, responde que há oito anos achava que sim. Mas hoje percebe que está só começando.
Kleber Felix já lançou um livro de poema, três peças teatrais, um livro e contos, uma novela e um romance.
...Desliguei o gravador, conversamos por mais de horas. E como se fosse combinado, as minhas perguntas acabaram no instante em que tomamos o último gole e percebemos que a garrafa já estava vazia.

domingo, 2 de outubro de 2011

Triste demais pra tentar ser feliz

Uma garota meio bêbada adentrando meu inferno particular, insinuando através de frases desarticuladas que se sentia bem ao meu lado, me fazendo crer que não sou assim tão antipático e desinteressante quanto imaginava naqueles dias.
Gripado e de ressaca num inverno brutal, dispensando cerveja numa festa universitária open-bar. Que merda eu tava fazendo ali? Fui de vodka.
Falei qualquer coisa simpática, mesmo sem sorrir, ela também não precisava de tal artifício.
“Tem refri aí dentro?” – ela perguntou.
Me pegou desprevenido tentando dizer não, deu um bom trago no meu gole.
“Vô lá pegá mais pra gente.” – foi.
Sem um copo em mãos me sinto desprotegido, meio canastrão entre a ‘galera’, digno de pena, até. Um ou dois versos beats, alguns acordes dum sax invisível, desolação, evitando cigarros, catarros verdes congestionando um pulmão falido. Às vezes tudo parece uma piada de mal gosto, um programa de tv dominical, um romance ruim, uma caixa de fósforos úmida no bolso da jaqueta e ela tá de volta, um copo cheio, ausência de sorriso e um olhar que só tem quem bebe vodka sem refri. Seguro forte o copo plástico como um rosário, ou uma arma. Um pequeno gole, depois, outro maior, me sinto melhor, ainda sei o caminho de casa.
“Tchau.” – ainda consigo ouvi-la dizer.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

GATOS NO CIO NÃO PEDEM PERDÃO

Pra que for afim de segurar um exemplar e tiver em Dourados, deixei mais alguns exemplares na Companhia do Livro e acho que ainda deve ter alguns lá na Loja de Revistas Estilo.
Pra quem não tiver por aqui  pode me mandar um email: kleberfelix_@hotmail.com que envio pelo correio.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Se eu pudesse, vivia bêbado

Quando eu era um garoto e vestia preto, bebia pinga com refrigerante feito um retardado, virava sem dó, acho que pra fugir de uma porrada de supostos fantasmas inventados, vomitava os sacanas pela manhã. E eu tinha medo de cirrose. Puta inocência.
Hoje bebo sem medo, devagar, quase tranqüilo.Não pra fugir, já parei com essas coisas. O negócio é que gosto de ficar bêbado, aquela sensação de que tá tudo bem, saca? As pessoas se tornando mais toleráveis e os dias amanhecendo um pouco mais bonitos e eu durmo tranqüilo depois de escrever um monte de merda que pra mim são importantes pra caralho. Tá certo, às vezes faço algumas merdas por isso e as pessoas se tornam insuportáveis e os velhos supostos fantasmas me chamam pra briga e muitas vezes eu nem consigo vomitar e os dias amanhecem insuportavelmente ensolarados, mas nem sempre é assim, não tem sido assim. Bebo e converso com os amigos ou com meus textos, meu violão desafinado. Tem gente que gosta de fumar maconha, tem gente que cheira ou se pica por aí, pra fugir ou simplesmente pra tolerar os outros e verem os dias nascerem mais bonitos. Uma vida de vícios. Bebo sempre que posso, tento não fazer muita merda. Tem gente que frequenta igrejas ou terreiros e se acham felizes e são abstemias ou só bebem socialmente e tão sempre sorrindo, legal pra elas, desde que não venham julgar meus vícios, eu não julgo os seus. Dizem que Deus dá ordem aos seus anjos pra proteger os bêbados, legal, se for verdade, talvez seja, talvez por isso eu tô tranqüilo, bêbado e longe de encrencas.